Hora marcada

25 04 2013

– E é esse o meu problema… de repente tudo se torna horário. Um compromisso, uma entrevista, uma visita, um jogo. Quando foi que nos tornamos escravos do tempo? E o ser humano é o único que cuida isso. Veja… veja os animais, veja um cachorro. Ele não se importa com a hora, ele não possui um relógio. Ele acorda na hora quando está descansado, come quando tem fome, dorme quando sente sono e passa o dia deitado ao sol. Quando temos tempo para fazer esse tipo de coisa? Nunca! A vida é estudo, depois trabalho, compromissos, tudo para que no fim tenhamos uma vida boa. Mas que ironia! Enquanto fazemos tudo isso, a vida está passando, a vida já passou! As horas passam muito rápido… mas o que são as horas? Nos esforçarmos para criar e manter um sistema que mais nos prejudica que ajuda. O que é o relógio, se não um objeto criado pelo homem para escravizar o homem? Acorde às 7. Almoce ao meio-dia. Vá dormir cedo. O que é o cedo? Não se sabe, cada um tem seu conceito. Mas não importa o teu cedo ou o meu cedo, estamos todos lá, no mesmo horário, no dia seguinte, sem direito a reclamações. Ironia! E o pior: estamos tão automatizados que não paramos mais para pensar nisso, não! Cobramos dos outros, cobramos de nós mesmos! “Você não tem relógio”? “Use o despertador”! Mas por que eu tenho que me sujeitar a isso? Por qu…

– Senhor Renato…

– Pois não?

– São 15:40. A consulta acabou.

Sua expressão de surpresa rapidamente mudou para tristeza ao voltar seu olhar para o relógio. “Você ganhou de novo” pensou antes de erguer o olhar do relógio ao terapeuta, estendendo-lhe a mão para o adeus. Ao fundo da sala, em tom de deboche, dançava a ironia.

Bruno Flores





Um breve conto

23 04 2013

Certa vez um homem dono de muitas terras e com as mais avançadas técnicas de produção anda pela estrada com suas charretes, levando sua produção para ser usada no seu restaurante da cidade, quando parou ao ver um senhor com cerca de 80 anos, já muito curvado e com o rosto mostrando as marcas do tempo. Foi uma vida dura. Ele tinha mãos trêmulas com dedos longos e muito calejados. Carregava uma enxada no seu ombro e isso foi o que chamou a atenção do rico comerciante. Quando percebeu que o senhor carregava um cesto com alguns legumes na sua mão, sentiu-se obrigado a perguntar:

– Meu bom senhor, já és um homem de idade, por que cultivas nesse quintal tão pouco produtivo, com legumes tão pequenos, sendo que podes ir à cidade consumir dos meus belos pratos?

O senhor ergueu seus olhos para poder alcançar aquele homem jovem que se posicionava altivamente no topo da sua charrete:

– Para que serve o que ganhas com tamanha produção?

Surpreso com a pergunta o jovem responde:

– Dinheiro! Bens! O meu restaurante foi do meu pai, que me encarregou de continuar os negócios e hoje é um dos mais conceituados da cidade inteira! O que ganho serve para pagar minhas contas, comprar mais terras e possuir uma vida cada vez mais luxuosa e para minha exigente mulher, que era modelo.

O senhor suspira profundamente e diz:

– Por isso produzo no meu quintal tão pouco produtivo. Quando se produz algo com seu próprio esforço e sabendo com que intenções foram feitas, por mais que não seja da melhor qualidade possível, é muito mais apreciado do que algum fruto de outra pessoa. Sou um homem que já está chegando ao final da minha existência, e quando começamos a notar o que realmente vale na vida, vemos que no fim o dinheiro se rasga, as casas desmoronam, os bens se perdem, e o que levamos conosco são as ações, os pensamentos e as intenções com que fizemos tudo durante todo o tempo em que somos vivos.

Então o senhor baixou seu olhar novamente e dirigiu-se ao seu casebre, deixando com que o silêncio se encarregasse de fazer o homem à frente de toda sua enorme produção absorver aquele simples desabafo.

Depois desse dia o dono do restaurante não fechou o seu negócio, nem demitiu seus inúmeros funcionários. Não se desfez do seu dinheiro, nem da sua luxuosa casa. A conversa daquele homem velho era absurda no seu ver. Para ele, possuía tudo que precisava. Tinha luxo, conforto, conceito e uma mulher muito bonita. Não se importava com mentiras, exploração, traição e trapaças; isso faz parte da vida. Aquilo tudo não passou de um velho falando coisas que os velhos costumam dizer.

 

Lucas S. da Rosa





Dar a vida

27 09 2011

Dar a vida. Será que todos estão prontos para isso? Mas dar a vida em um sentido que não compreende a morte. Vai muito além disso. Dar a vida no sentido de doar cada segundo seu a algo em troco de algum objetivo. Porém, será que o objetivo pelo qual está querendo se dar a vida é aquele mesmo que busca? E se sim, tal objetivo tem apenas uma forma de ser alcançado? Nem só por uma estrada se chega a um ponto.

Muitos pensam que ter um objetivo na vida é ter reconhecimento, dinheiro, uma vida confortável, e outros “objetivos” do gênero. Infelizmente essa é a visão que o mundo consumista nos impôs. Será que é tão difícil enxergar além dos prédios e lojas? Será que é tão difícil ver através das televisões e propagandas? Todos são cegados pelas luzes dos outdoors.

O que seria um objetivo, afinal? Coisas materiais, já foi visto que não. Já foi parado em algum momento para ver o que o mundo tem de errado? E o que ele realmente pode te oferecer? Além da roupa nova, da cerveja gelada, da música do momento… Ele pode ser algo que as pessoas acreditam ser bobagem, algo realmente especial.

É uma espécie de magia, uma energia que não se encontra de qualquer jeito. De um jeito que os problemas não te atingem que as vibrações negativas não te alcançam. Claro que sair, fazer festa, beber e dançar é legal, mas tem que fazer isso sem deixar de ser uma boa pessoa, que quer o bem do mundo, o bem do próximo antes do seu.

Lucas da Rosa





Curto

28 03 2011

Não sei nem como introduzir o assunto, pois é algo que de certa forma sinto vergonha. Afinal, ninguém gosta de falar das coisas erradas que fez, nem dos momentos que quer esquecer. Mas aqui falarei um pouco sobre o que já passei, que não é muito com a minha pequena caminhada na highway da vida, para que alguém possa aprender com meus erros, e não botar sua vida de uma maneira tão desagradável, como certas vezes acontece comigo.

Primeira e única  lição: nunca perca a calma. Pode brigar e xingar, pois isso é inevitável, mas não se esqueça de sempre lembrar das pessoas que ama. Palavras, mesmo que sem intenção são capazes de aniquilarem corações, almas e vidas. Seja ela individual ou não. Acredite em minhas palavras. Não deixe o gelo do copo derreter, pois caso isso ocorra, irá derramar, e quando derrama , o trabalho para limpar tudo não é fácil.  E o pior, há o risco de não conseguir limpar.

Lucas Saldanha





Voltarei?

17 03 2011

Fazendo um rápido post nesta quinta-feira, dia 17 de março, dia em que começam minhas aulas na Universidade Federal de Santa Maria, no curso de Psicologia. Decidi postar por duas razões: 1)Para o blog não sair do ar; 2)Por saudade. Atualmente estou postando num blog de imagens humorísticas, o Que Tenso! e aqui está o link: http://quetenso.wordpress.com/

Saudade da inspiração que eu tinha para escrever… E sinto que ela está voltando. Nunca mais postei um texto, e toda vez que tentava acabava “travando” e nada saía da minha mente… Mas esse blog contém, por incrível que pareça, alguns textos realmente bons, então achei que seria inútil o trabalho aqui feito simplesmente desaparecer. Os textos daqui me inspiraram um pouco a voltar a escrever, e como o Que Tenso! está sendo usado mais para imagens do que pra outra coisa, acho que vou postar meus pensamentos aqui. Nada certo, mas vamos ver no que vai dar.

Bruno Flores





Confiança e um livro na multidão

11 09 2010

Confiança definitivamente não é algo tão simples quanto eu pensava ser. Aliás, é uma das coisas mais complexas que eu já vi. Ela envolve amor e medo ao mesmo tempo. O amor está no ato de deixar que o outro tenha sua liberdade, e ao mesmo tempo o medo de que tudo seja jogado ao vento. Me castigo com a minha mente pensando em todas possibilidades possíveis.

Sempre tive o hábito de ser uma espécie de observador, vendo as interações das pessoas como um mero espectador. Confesso que o ponto de vista exterior é sempre mais favorável, uma vez que pode-se observar os lados em questão com mais clareza. Essa posição se torna completamente obsoleta quando somos nós que estamos envolvidos no caso em questão.

Vendo tantos casos diferentes, mas sempre com suas semelhanças, achava que isso me ajudaria quando fosse comigo. Não posso dizer que tais observações não ajudaram, pois alguma coisa se absorve como experiência, mas no geral, acredito que eu aja como aqueles que analisava, e no fim me tornei apenas mais um caso daqueles que eu observava com tanta vontade de analisar. O problema é que eu não consigo ter aquela posição onisciente do meu caso, é difícil saber o outro lado, e mesmo que saiba, é difícil deixar que os pensamentos não interfiram e o pior seja imaginado.

O estranho é que de certa forma, eu sempre imaginei a vida como sendo um grande livro, que é lido no final de tudo. E como leitor, eu não gostaria de ler um livro chato, sem graça, sem emoção, sem um diferencial. Eu sempre gostei de livros com um diferencial, e acho que isso é algo que deve estar presente na nossa existência, para que possamos chegar ao final de tudo sabendo que não tivemos uma vivência sem algo especial. Sempre li obas não tão convencionais como O Guia do Mochileiro das Galáxias, que te faz viajar pelo universo de uma maneira nunca vista e isso, acreditando, ou não, faz-te ver o mundo de uma maneira diferente.

Ver o mundo de uma maneira diferente. Essa parte até que não é difícil. O difícil é tratar o mundo de uma maneia diferente. Não ser convencional é o que considero o atrativo. Mas o não convencional fora das convencionalidades, que muitas pessoas insistem em não ver. É muito fácil ser diferente nas ações iguais. O interessante é ser único nas ações diferentes. E isso envolve desde os pensamentos mais complexos, até os mais simples, que usamos todos os dias.

Quando falo de pensamentos simples, trato dos princípios mais básicos das relações humanas, como a confiança, tratada no início deste artigo. E aí se encontra o desafio. Tratar essa de uma maneira como as pessoas não tratam. Elas dizem tratar, mas não saem das palavras. No final a maioria faz a mesma coisa, que é ignorar tudo e vivem na desconfiança. Elas optam pela opção mais fácil, pois confiar, como eu já disse (e se não disse, digo agora), confiança é algo muito complexo.

Não posso me precipitar. Sempre fui contra isso, e não posso me contrariar. O tempo fará as ações, os pensamentos e as palavras se ajeitarem. Mas não que esse jeito que ele dê seja da maneira mais fácil. Não queria ser assim, mas até atingir a real confiança, viverei na minha desconfiança, como a maioria das pessoas. Buscando a inconvencionalidade, me torno apenas mais um na multidão, afinal, ou se é diferente, ou se é mais um.

Lucas da Rosa





Visão, pensamento, eleição

3 09 2010

Eu pensando aqui comigo… Por que as pessoas insistem em não enxergar? Mesmo com os fatos diante dos olhos, elas não veem. É uma acomodação que impede até a mobilização para tratar dos próprios problemas. Pessoas sem uma boa moradia, sem um saneamento básico… E por quê? Lamentam-se por não terem boas condições, mas nada além disso. E os movimentos sociais? Associações? A mobilização? Pessoas tem direitos, e estes devem ser cobrados. Temos a constituição mais completa do mundo (tão completa que há artigos que se contradizem), e lá está que cidadãos têm uma variedade de vantagens, que na maioria das vezes não são concedidas, se não cobradas.

Esses tempos fiz um trabalho no colégio em que fiz uma crítica a forma de como os três poderes são exercidos no Brasil, mas não foi um trabalho tão comum. Primeiramente fiz o que a maioria das pessoas faz: criticar. Mas aí vem o diferencial: propor soluções. Esse foi o real desafio da avaliação. É muito fácil fazer o que fazem, que é criticar e dizer que tudo não está bom, mas propor mudanças é uma tarefa árdua que exige muita ponderação. E após a pesquisa, percebe-se que as principais mudanças que devem ocorrer não ocorrem porque quem tem mais posses não quer abrir mão delas para que outros possam emergir.

Pensamento facilmente justificável, afinal, com o pensamento contemporâneo, quem daria parte dos seus bens aos outros? Pelo contrário, sempre se quer muito mais, não importando se tirará de alguém que necessita mais. Nesse ponto entra a questão governamental. Tirar a renda da população para tirar proveito próprio é algo brutal e presente no cotidiano do brasileiro. Seja desvio de verbas, dinheiro enfiado nas mais inusitados lugares e até mesmo o uso indevido de cartões corporativos são atos que estão tirando o dinheiro da camada popular que muitas das vezes precisa de tal dinheiro para ter uma qualidade de vida melhor.

Mas para que fazer a camada popular ter uma vida melhor? Uma vida miserável para eles é muito mais vantajosa. Manipular a esperança deles de ter uma vida melhor para conseguir votos é algo bem conveniente, principalmente para políticos em épocas de eleições.

Falando em eleições, já sabem em quem vão votar? Muito bem, mas sabem quem realmente são as pessoas em que vão votar? Que não vão com o pensamento de ir no dia da votação e votar em “Fulano”, só por que ele falou na TV que trará progresso, ou porque passou na sua rua falando coisas legais e distribuindo alguma coisas mais legais ainda. Saiba do seu passado, para ver se realmente é capacitado para exercer a função que está disposto,e após isso analise suas propostas e veja se realmente são plausíveis. Esse é o chamado voto consciente, que tanto se fala (ou não).

Em suma, digo que as pessoas devem começar a prestar atenção na sua realidade e cobrarem o que realmente têm direito. E nos tempos de eleição em que estamos, devem estar atentos para o tipo de gente que estão botando no poder para representá-los. Só ficar reclamando não adianta de nada. Afinal, como disse Rosseau, “O povo tem o governo que merece.”

Lucas da Rosa